Lugar de Pensar

Se você é um ser que somente consegue ler 140 caracteres... fuja daqui rapidamente.
Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome. Clarice Linspector
“Não somos seres humanos vivendo uma experiência espiritual, somos seres espirituais vivendo uma experiência humana.” Teilhard de Chardin
A solidão não existe! Tenho um mundo inteiro dentro de mim.
Seja bem-vindo.

16.2.16

retorno

no retorno....

recomendo o site: TOCA DOS CINÉFILOS.

http://tocadoscinefilos.net.br/



5.1.15

Diaz: Política e Violência

Da série...filmes em ATENÇÃO!







Diaz: Política e Violência
Filme de 2012
Data de lançamento: 13 de abril de 2012 (Itália)
Direção: Daniele Vicari
Duração: 127 minuto
Música composta por: Teho Teardo
Roteiro: Daniele Vicari, Laura Paolucci, Alessandro Bandinelli, Emanuele Scaringi

Sinopse:

Um grupo de jovens ativistas se reúne para o Fórum Social de Genova, que ocorre ao mesmo tempo que um encontro do G8. Eles ficam acampados na escola Diaz-Pascoli e acabam surpreendidos com um ataque brutal da polícia, na noite de 21 de julho de 2011. Muitos vão parar no hospital e, mais tarde, acabam em um centro de detenção. A polícia planta um coquetel Motolov no local para justificar a ação. Ao mesmo tempo, ao ficar sabendo da morte de um ativista, o jornalista Luca, da Gazzetta de Bolonha, decide partir para Genova para conferir de perto a situação.


assistir= clique no endereço abaixo:
http://megafilmeshd.net/diaz-politica-e-violencia/

4.1.15

Billie...









Lady Sings the Blues is an album by jazz vocalist Billie Holiday. It was Holiday's last album released on Clef Records; the following year, the label would be absorbed by Verve Records. Lady Sings the Blues was taken from sessions taped during 1954 and 1956. It was released simultaneously with her ghostwritten autobiography of the same name.

The tunes are:

1.- Lady Sings The Blues 3:45 (Billie Holiday - Herbie Nichols)
2.- Trav'lin' Light 3:08 (James Mundy - Johny Mercer- James Oliver)
3.- I Must Have That Man 3:03 (Jimmy McHugh - Dorothy Fields)
4,. Some Other Spring 3:35 (Arthur Herzog, Jr.)
5. Strange Fruit 3:02 (Lewis Allan)
6.- No Good Man 3:18 (Irene HIgginbotham - Dan Fisher - Sammy Gallop)
7.- God Bless The Child 3:57 (Billie Holiday - Arthur Herzog, Jr.)
8.- Good Morning Heartache 3:27 (Irene Higginbotham - Ervin Drake - Dan Fisher)
9.- Love Me Or Leave Me 2:33 (Walter Donaldson - Gus Kahn)
10.- Too Marvelous For Words 2:11 (Johny Mercer - Richard Whiting)
11.- Willow Weep For Me 3:06 (Ann Ronell)
12.- I Thought About You 2:46 (Jimmy Van Heusen - Johnny Mercer)

Música
"Too Marvelous for Words" por Billie Holiday (Google Play • iTunes • eMusic)

Artista Billie Holiday

Categoria Música
Licença padrão do YouTube

3.1.15

O SILÊNCIO DOS INOCENTES







Título original The Silence of the Lambs
Dirigido por Jonathan Demme
Com Anthony Hopkins, Jodie Foster, Scott Glenn mais
Gênero: Suspense
Nacionalidade EUA


http://www.megafilmesonlinehd.com/o-silencio-dos-inocentes-dublado/

2.1.15

A Peste, Albert Camus








ORIGINAL:La peste (1992)
LIVRO : A Peste de Albert Camus
Gênero: Drama
Direção e Roteiro: Luis Puenzo
Elenco: Jean-Marc Barr, Raul Julia, Robert Duvall, Sandrine Bonnaire, William Hurt
Produção: Cyril de Rouvre, Larry Sugar
Fotografia: Félix Monti
Duração: 119 min.
Ano: 1991


Uma peste desconhecida explode numa cidade sul-americana, onde um médico e uma repórter têm de enfrentar simultaneamente a doença e o governo. Baseado na obra de Albert Camus.


9.9.13

Hannah Arendt


Poster do filme 'Hannah Arendt"



Hannah Arendt, filósofa política alemã de origem judaica (1906-1975)


Adolf Eichmann em seu julgamento em Jerusalém, (Julho 17, 1961), por Ronald Searle



Adolf Eichmann, criminoso nazista. Mas, também, um burocrata preocupado apenas em cumprir ordens…








A atualidade brutal de Hannah Arendt




por, Ladislau Dowbor

Filme de Margarethe von Trotta sugere que totalitarismo pode assumir faces “normais” e parece indispensável num cenário de democracia esvaziada e guerra iminente



O filme causa impacto. Trata-se, tema central do pensamento de Hannah Arendt, de refletir sobre a natureza do mal. O pano de fundo é o nazismo, e o julgamento de um dos grandes mal-feitores da época, Adolf Eichmann. Hannah acompanhou o julgamento para o jornal New Yorker, esperando ver o monstro, a besta assassina. O que viu, e só ela viu, foi a banalidade do mal. Viu um burocrata preocupado em cumprir as ordens, para quem as ordens substituíam a reflexão, qualquer pensamento que não fosse o de bem cumprir as ordens. Pensamento técnico, descasado da ética, banalidade que tanto facilita a vida, a facilidade de cumprir ordens. A análise do julgamento, publicada pelo New Yorker, causou escândalo, em particular entre a comunidade judaica, como se ela estivesse absolvendo o réu, desculpando a monstruosidade.

A banalidade do mal, no entanto, é central. O meu pai foi torturado durante a II Guerra Mundial, no sul da França. Não era judeu. Aliás, de tanto falar em judeus no Holocausto, tragédia cuja dimensão trágica ninguém vai negar, esquece-se que esta guerra vitimou 60 milhões de pessoas, entre os quais 6 milhões de judeus. A perseguição atingiu as esquerdas em geral, sindicalistas ou ativistas de qualquer nacionalidade, além de ciganos, homossexuais e tudo que cheirasse a algo diferente. O fato é que a questão da tortura, da violência extrema contra outro ser humano, me marcou desde a infância, sem saber que eu mesmo a viria a sofrer. Eram monstros os que torturaram o meu pai? Poderia até haver um torturador particularmente pervertido, tirando prazer do sofrimento, mas no geral, eram homens como os outros, colocados em condições de violência generalizada, de banalização do sofrimento, dentro de um processo que abriu espaço para o pior que há em muitos de nós.

Por que é tão importante isto, e por que a mensagem do filme é autêntica e importante? Porque a monstruosidade não está na pessoa, está no sistema. Há sistemas que banalizam o mal. O que implica que as soluções realmente significativas, as que nos protegem do totalitarismo, do direito de um grupo no poder dispor da vida e do sofrimento dos outros, estão na construção de processos legais, de instituições e de uma cultura democrática que nos permita viver em paz. O perigo e o mal maior não estão na existência de doentes mentais que gozam com o sofrimento de outros – por exemplo uns skinheads que queimam um pobre que dorme na rua, gratuitamente, pela diversão – mas na violência sistemática que é exercida por pessoas banais.

Entre os que me interrogaram no DOPS de São Paulo encontrei um delegado que tinha estudado no Colégio Loyola de Belo Horizonte, onde eu tinha estudado nos anos 1950. Colégio de orientação jesuíta, onde se ensinava a nos amar uns aos outros. Encontrei um homem normal, que me explicava que arrancando mais informações seria promovido, me explicou os graus de promoções possíveis na época. Aparentemente queria progredir na vida. Outro que conheci, violento ex-jagunço do Nordeste, claramente considerava a tortura como coisa banal, coisa com a qual seguramente conviveu nas fazendas desde a sua infância. Monstros? Praticaram coisas monstruosas, mas o monstruoso mesmo era a naturalidade com a qual a violência se pratica.

Um torturador na OBAN me passou uma grande pasta A-Z onde estavam cópias dos depoimentos dos meus companheiros que tinham sido torturados antes. O pedido foi simples: por não querer se dar a demasiado trabalho, pediu que eu visse os depoimentos dos outros, e fizesse o meu confirmando a verdades, bobagens ou mentiras que estavam lá escritas. Explicou que eu escrevendo um depoimento que repetia o que já sabiam, deixaria satisfeitos os coronéis que ficavam lendo depoimentos no andar de cima (os coronéis evitavam sujar as mãos), pois veriam que tudo se confirmava, ainda que fossem histórias absurdas. Segundo ele, se houvesse discrepâncias, teriam de chamar os presos que já estavam no Tiradentes, voltar a interrogá-los, até que tudo batesse. Queria economizar trabalho. Não era alemão. Burocracia do sistema. Nos campos de concentração, era a IBM que fazia a gestão da triagem e classificação dos presos, na época com máquinas de cartões perfurados. No documentário A Corporação, a IBM esclarece que apenas prestava assistência técnica.

O mal não está nos torturadores, e sim nos homens de mãos limpas que geram um sistema que permite que homens banais façam coisas como a tortura, numa pirâmide que vai desde o homem que suja as mãos com sangue até um Rumsfeld que dirige uma nota aos exército americano no Iraque, exigindo que os interrogatórios sejam harsher, ou seja, mais violentos. Hannah Arendt não estava desculpando torturadores, estava apontando a dimensão real do problema, muito mais grave.

A compreensão da dimensão sistêmica das deformações não tem nada a ver com passar a mão na cabeça dos criminosos que aceitaram fazer ou ordenar monstruosidades. Hannah Arendt aprovou plenamente e declaradamente o posterior enforcamento de Eichmann. Eu estou convencido de que os que ordenaram, organizaram, administraram e praticaram a tortura devem ser julgados e condenados.

O segundo argumento poderoso que surge no filme, vem das reações histéricas de judeus pelo fato de ela não considerar Eichmann um monstro. Aqui, a coisa é tão grave quanto a primeira. Ela estava privando as massas do imenso prazer compensador do ódio acumulado, da imensa catarse de ver o culpado enforcado. As pessoas tinham, e têm hoje, direito a este ódio. Não se trata aqui de deslegitimar a reação ao sofrimento imposto. Mas o fato é que ao tirar do algoz a característica de monstro, Hannah estava-se tirando o gosto do ódio, perturbando a dimensão de equilíbrio e de contrapeso que o ódio representa para quem sofreu. O sentimento é compreensível, mas perigoso. Inclusive, amplamente utilizado na política, com os piores resultados. O ódio, conforme os objetivos, pode representar um campo fértil para quem quer manipulá-lo.

Quando exilado na Argélia, durante a ditadura militar, conheci Ali Zamoum, um dos importantes combatentes pela independência do país. Torturado, condenado à morte pelos franceses, foi salvo pela independência. Amigos da segurança do novo regime localizaram um torturador seu, numa fazendo do interior. Levaram Ali até a fazenda, onde encontrou um idiota banal, apavorado num canto. Que iria ele fazer? Torturar um torturador? Largou ele ali para ser trancado e julgado. Decepção geral. Perguntei um dia ao Ali como enfrentavam os distúrbios mentais das vítimas de tortura. Na opinião dele, os que se equilibravam melhor, eram os que, depois da independência, continuaram a luta, já não contra os franceses mas pela reconstrução do país, pois a continuidade da luta não apagava, mas dava sentido e razão ao que tinham sofrido.

No 1984 do Orwell, os funcionários eram regularmente reunidos para uma sessão de ódio coletivo. Aparecia na tela a figura do homem a odiar, e todos se sentiam fisicamente transportados e transtornados pela figura do Goldstein. Catarse geral. E odiar coletivamente pega. Seremos cegos se não vermos o uso hoje dos mesmos procedimentos, em espetáculos midiáticos.

O texto de Hannah, apontando um mal pior, que são os sistemas que geram atividades monstruosas a partir de homens banais, simplesmente não foi entendido. Que homens cultos e inteligentes não consigam entender o argumento é em si muito significativo, e socialmente poderoso. Como diz Jonathan Haidt, para justificar atitudes irracionais, inventam-se argumentos racionais, ou racionalizadores.1 No caso, Hannah seria contra os judeus, teria traído o seu povo, tinha namorado um professor que se tornou nazista. Os argumentos não faltaram, conquanto o ódio fosse preservado, e com o ódio o sentimento agradável da sua legitimidade.

Este ponto precisa ser reforçado. Em vez de detestar e combater o sistema, o que exige uma compreensão racional, é emocionalmente muito mais satisfatório equilibrar a fragilização emocional que resulta do sofrimento, concentrando toda a carga emocional no ódio personalizado. E nas reações histéricas e na deformação flagrante, por parte de gente inteligente, do que Hannah escreveu, encontramos a busca do equilíbrio emocional. Não mexam no nosso ódio. Os grandes grupos econômicos que abriram caminho para Hitler, como a Krupp, ou empresas que fizeram a automação da gestão dos campos de concentração, como a IBM, agradecem.

O filme é um espelho que nos obriga a ver o presente pelo prisma do passado. Os americanos se sentem plenamente justificados em manter um amplo sistema de tortura – sempre fora do território americano pois geraria certos incômodos jurídicos -, Israel criou através do Mossad o centro mais sofisticado de tortura da atualidade, estão sendo pesquisados instrumentos eletrônicos de tortura que superam em dor infligida tudo o que se inventou até agora, o NSA criou um sistema de penetração em todos os computadores, mensagens pessoais e conteúdo de comunicações telefônicas do planeta. Jovens americanos no Iraque filmaram a tortura que praticavam nos seus celulares em Abu Ghraib, são jovens, moças e rapazes, saudáveis, bem formados nas escolas, que até acham divertido o que fazem. Nas entrevistas posteriores, a bem da verdade, numerosos foram os jovens que denunciaram a barbárie, ou até que se recusaram a praticá-la. Mas foram minoria.2

O terceiro argumento do filme, e central na visão de Hannah, é a desumanização do objeto de violência. Torturar um semelhante choca os valores herdados, ou aprendidos. Portanto, é essencial que não se trate mais de um semelhante, pessoa que pensa, chora, ama, sofre. É um judeu, um comunista, ou ainda, no jargão moderno da polícia, um “elemento”. Na visão da KuKluxKlan, um negro. No plano internacional de hoje, o terrorista. Nos programas de televisão, um marginal. Até nos divertimos, vendo as perseguições. São seres humanos? O essencial, é que deixe de ser um ser humano, um indivíduo, uma pessoa, e se torne uma categoria. Sufocaram 111 presos nas celas? Ora, era preciso restabelecer a ordem.

Um belíssimo documentário, aliás, Repare Bem, que ganhou o prêmio internacional no festival de Gramado, e relata o que viveu Denise Crispim na ditadura, traz com toda força o paralelo entre o passado relatado no Hannah Arendt e o nosso cenário brasileiro. Outras escalas, outras realidades, mas a mesma persistente tragédia da violência e da covardia legalizadas e banalizadas.

Sebastian Haffner, estudante de direito na Alemanha em 1930, escreveu na época um livro – Defying Hitler: a memoir – manuscrito abandonado, resgatado recentemente por seu filho que o publicou com este título.3 O livro mostra como um estudante de família simples vai aderindo ao partido nazista, simplesmente por influência dos amigos, da mídia, do contexto, repetindo com as massas as mensagens. Na resenha do livro que fiz em 2002, escrevi que o que deve assustar no totalitarismo, no fanatismo ideológico, não é o torturador doentio, é como pessoas normais são puxadas para dentro de uma dinâmica social patológica, vendo-a como um caminho normal. Na Alemanha da época, 50% dos médicos aderiram ao partido nazista.

O próximo fanatismo político não usará bigode nem bota, nem gritará Heil como os idiotas dos “skinheads”. Usará terno, gravata e multimídia. E seguramente procurará impor o totalitarismo, mas em nome da democracia, ou até dos direitos humanos.

1 Jonathan Haidt, The Righteous Mind (A Mente Moralista), 
http://dowbor.org/2013/06/jonathan-haidt-the-righteous-mind-why-good-people-are-divided-by-politics-and-religion-a-mente-moralista-por-que-boas-pessoas-sao-divididas-pela-politica-e-pela-religiao.html/

2 Melhor do que qualquer comentário, é ver o filme O Fantasma de Abu Ghraib, disponível no Youtube 

em http://www.youtube.com/watch?v=_TpWQj0MjvI&feature=youtube_gdata_player ; ver também a pesquisa da BBC http://guardian.co.uk/world/2013/mar/06/pentagon-iraq-torure-centres-link ; sobre Guantanamo, ver o artigo do New York Times de 15/04/2013

3 Sebastian Haffner – Defying Hitler – http://dowbor.org/2003/08/defying-hitler-a-memoir.html/


FONTE: http://outraspalavras.net/capa/a-atualidade-brutal-de-hannah-arendt/

19.7.13

Confissões INverdadeiras de um Puto.


quem esse sórdido pensa que engana;e eu que pensei que estupidez tinha limites! é risível, é trágico, é sujo.


Delfim Netto diz que não sabia de torturas na ditadura e defende o AI-5

Por Vasconcelo Quadros 

“Era um bando de maluquetes”, disse, ao se referir aos militares da linha dura, que deram as caras depois que o regime militar baixou, em dezembro de 1968, o famoso Ato Institucional nº 5, do qual ele foi defensor e signatário.

Nas quase duas horas em que prestou depoimento, atendendo convite do vereador Gilberto Natalini (PV), presidente da Comissão Municipal da Verdade, Delfim disse o que quis e não encontrou contraponto. Os vereadores não tinham um documento sequer que confrontasse suas versões.

O ex-ministro afirmou que nunca falou com o ex-governador e hoje deputado Paulo Maluf sobre repressão, disse que não conheceu o delegado Sérgio Paranhos Fleury, a face mais cruel da repressão urbana, e que só conversou com o empresário Albert Boilesen - o diretor da Ultragaz executado pela esquerda em represália ao apoio ostensivo que ele deu à repressão - sobre taxa de juros.

O grande trunfo da comissão era o relato feito pelo jornalista Elio Gaspari, autor da série As Ilusões Armadas , no livro Ditadura Escancarada, sobre um suposto encontro em que Delfim teria pedido aos empresários paulistas que colocassem a mão no bolso para financiar a Operação Bandeirantes (Oban), criada para exterminar as organizações de esquerda.

Depoimento: 'Nunca ocultei cadáver', diz coronel Ustra à Comissão da Verdade

Mais prazo: Dilma dará mais seis meses de prazo para a Comissão Nacional da Verdade

“Não é verdade o que está no livro”, disse Delfim sobre a reunião. “É improvável que tenha havido caixinha”, acrescentou. Ele elogiou o jornalista, mas negou que tenha coordenado reuniões. Também afirmou que nunca ouviu falar em Oban.

A reunião teria sido convocada por Delfim e foi revelada pelo banqueiro Gastão Bueno Vidigal, versão nunca desmentida, embora Delfim já tenha dito ao próprio Gaspari que não participou.

A formação de um caixa por empresários da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) foi confirmada em várias entrevistas pelo ex-governador paulista, Paulo Egydio Martins, que deverá depor em breve e poderá esclarecer as declarações de Delfim Netto.

“No afã de negar tudo, ele perdeu a oportunidade de se redimir. Nem o seu neto de 3 anos acreditaria que ele não sabe de nada”, disse Natalini. “O Delfim veio para mentir e mentiu”, afirmou o jornalista Ivan Seixas, coordenador da Comissão Estadual da Verdade.

Bem a seu estilo, o ex-ministro ignorou as provocações e quando Natalini lembrou que, preso e torturado, havia sido uma das vítimas, o encarou sério.

“O senhor tem a minha solidariedade. Sou a favor que se apure toda a verdade mesmo”, tergiversou. Quando lembraram que ele foi signatário do AI-5, respondeu que assinou também a Constituição. Defendeu o ato de exceção afirmando que havia, em 1968, uma “desarrumação geral” e que a esquerda estava “destruindo o país”.

Aos jornalistas, na saída, disse que não há comparação entre 1968 e as manifestações de agora que, segundo ele, representam um avanço do processo democrático. Afirmou que é favorável ao plebiscito proposto pelo governo e que a economia não corre riscos.

“O mercado e as urnas fazem o mesmo jogo dialético”, filosofou, como se estivesse repetindo a audiência com os vereadores. Delfim saiu no lucro e agora dificilmente será constrangido pelas comissões estadual e nacional, onde ainda pode ser convocado. Tem como argumento o depoimento desta terça, em que nada disse, mas que pode repetir.

Revoluções...Revoluções...




Assunto: Para Livre Escolha...

Depois dos protestos dos últimos dias que reuniram 250 mil pessoas, segundo dados oficiais, mas que provavelmente teve muito mais gente e que foi “convocada” principalmente nas redes sociais (sem qualquer manipulação dos partidos políticos do país), o que leva a pensar que os insatisfeitos podem ser multiplicados muitas vezes, já que muita gente não teve força suficiente pra vencer a velha inércia e sair de casa; depois dessa manifestação histórica é bom ir se preparando e escolher qual o tipo de revolução que melhor se coaduna com você:


Revolução Burguesa. A Revolução Burguesa é muito chata. Ninguém quebra nada, pois a burguesia não quer saber de prejuízo. Eles ficam andando pra lá e pra cá e gritando: "Morte ao rei! Morte ao rei!". O que é particularmente ridículo se você vive numa República. Quando se cansam, todos se sentam, bebem vinho francês e discutem maneiras de burlar empréstimo no BNDES.
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Revolução Proletária. A Revolução Proletária é absolutamente sem sentido. Acompanhe. O proletário rala feito uma besta numa fábrica. Tudo o que quer são condições melhores de trabalho e aumento de salário. Um dia ele se invoca, faz uma revolução e se apropria da fábrica. E aí tem de trabalhar feito uma besta para sempre. Não adianta chegar pro patrão e pedir aumento pra comprar carro novo. Não tem carro novo. Não tem patrão. Não tem aumento. Só tem a fábrica. E se o cara se recusa a trabalhar, acaba não se aposentando pelo INSS. Proletário é uma besta mesmo.
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Revolução Permanente. A coisa mais complicada da Revolução Permanente é que não tem hora para acabar. Não dá para largar às seis e dizer: "ok, pessoal, vou pra casa ver novela e vejo vocês amanhã na derrubada do czar". Revolução Permanente é para sempre. Já quem a defende costuma morrer cedo. No geral, com uma picareta no meio da testa.
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Revolução Industrial. É parecida com "O Exterminador do Futuro", um clássico do cinema que vocês, "milennials", não conhecem. As máquinas dominam tudo e o trabalho manual vira sinônimo de masturbação. A Revolução Industrial é seguida da Revolução Digital, que permite a livre circulação de pornografia para que todo mundo possa se dedicar ao trabalho manual. O Google vence no final.
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Revolução Cubana. Logo no começo, o cantor diz "e ao piano, Don Rubén González". E aí todo mundo começa a cantar "Guajira, el son te llama, a bailar, a gozar...". É, de longe, a revolução com o melhor swing. Tem uma blogueira feiosa que reclama, mas é só tomar um mojito e fumar um charuto que você se esquece feiúra dela.
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Revolução Russa. De um lado fica um monte de gente gritando "Tolstoi! Tolstoi!". Do outro, um bando berra "Lenin! Lenin!". Aí chega uma “Lolita” muito safada e pergunta: "E na Nabokov, não vai nada?"
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Revolução de 64. Os militares gostam muito, pois apesar de ser chamada de "revolução", é só um golpe: os militares saíram golpeando todo mundo que discordava deles. A PM sádica do Geraldo Alckmin é um entulho desta época. Eles acham que jato de pimenta no dos outros é refresco.
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Outras revoluções. Esses são apenas alguns exemplos, mas existem muitos outros. Por exemplo: A Revolução Estética, que usa pincel e tinta em vez de coquetel molotov, mas precisa de muito mais palavras de ordem pra dar certo. A Revolução Gloriosa, que, como o nome indica, foi uma grande passeata gay que tomou a Inglaterra do século 17. A Revolução Islâmica, que gerou filmes chatos sobre maçãs chatas e quadrinhos chatos sobre garotas chatas. E finalmente, a melhor de todas, a Revolução dos Costumes, que permite que as garotas saiam na rua de minissaia e topless. Nessa última, as pessoas só se machucam se for mutuamente consentido. Pense nisso.
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EDSON ARAN é autor de cinco livros. O mais recente, "Delacroix Escapa das Chamas" (Editora Record), é uma sátira futurista passada na São Paulo de 2068. Sua série de cartuns "O Totalmente Dispensável Almanaque Inútil do Aran" é publicada mensalmente no "Folhateen". Ele foi diretor das revistas  "Playboy", "Sexy" e redator-chefe da "Vip". É um tuiteiro compulsivo e sua conta é @EdsonAran

*recebi por email.

2.7.13

ainda as ruas...

                                              Deliciosa chance de questionar os mitos





Por Theotonio de Paiva

Para construir imagem de um  ”povo acovardado”, vale tudo: da bandeira nacional à deformação de Macunaíma. Agora, as ruas desfazem tais mentiras



Os mitos, por vezes, dizem infinitamente mais sobre um povo, um país, do que a sua própria história. Em sua construção de uma outra verdade, trazem uma provocação terrível que nos obriga à reflexão. A auto-imagem, habilmente construída pelo senso comum, de que éramos um povo acovardado, incapazes de defender os seus direitos mais básicos, parece ter se instalado em nosso tecido social como uma doença auto-imune. Essa expressão nos ocupa corações e mentes, desde muito tempo, a ponto de imaginá-la como natural.
Referendada por toda a sorte de governos, lideranças políticas, ingênuos, raposas espertas, intelectuais perdigotos, jornalistas inescrupulosos, grandes empresários, a construção desse imaginário doentio insinuou-se como uma metáfora da gente brasileira. Como se contra a força não existisse nenhuma resistência e aos homens não fosse dada a capacidade de pensar e escolher.
Num signo curioso, a brava gente é apresentada como um povo indolente, preguiçoso e sem caráter. Deturparam tudo. Até a imagem do herói nacional, Macunaíma, que Mário de Andrade inventara na sua rapsódia, a partir das lendas indígenas do alto Amazonas.1 Na verdade, a figura do herói dizia uma coisa, mas foi retorcida como uma camisa, e virou outra realidade substancialmente diversa.
E o que pensava o escritor modernista? Ele via emergir um sentimento do trágico ao se dar conta de uma nação sem alma, cujo povo, o brasileiro, não teria “caráter porque não possui nem civilização própria nem consciência tradicional”. 2 Não é difícil perceber que nada tinha a ver com a ideia de um sujeito escroque e salafrário.
Não há dúvida de que esse traço perverso de dominação vocaliza com finura a noção de que “uma nação não é somente uma entidade política, mas algo que produz significados – um sistema de representação cultural”. 3 De todo modo, aquela condição macunaímica, apropriada sem grandes esforços pelos setores hegemônicos, parecia reservar uma espécie de conformismo genético que se estenderia para as gerações futuras. De modo inabalável, desenhava o perfil previsível de um povo.
No entanto, essa mesma representação trazia algumas perguntas incômodas dentro de si: em que base se sustentava? Teria sido muito difícil conhecer as falas subterrâneas desse mesmo povo? Que insurgências esse povo alimentava? A sua explosão, enquanto potência, contida em jaulas invisíveis, como em diversas ocasiões se deu a perceber, de que maneira fora tragada? Como misturaram todas essas possibilidades para gerar uma resultante próxima de zero, confusa, despolitizada? E, curiosamente, de que maneira, como num passe de mágica, teria se insurgido do nada?
As noções retiradas de uma história pouco difundida e sorrateiramente embaralhada provavelmente não deixavam entrever os mecanismos de construção empregados. Os olhos atentos, pegos no passado, o mais cuidadoso possível em não apagar as diferenças e contradições, certamente indicariam que aquilo a que chamam de violência não estava por vir. Era algo intrínseco em nossa formação social.
Novamente, a corda do medo se soltou. Embora sejam inegáveis as manipulações e infiltrações perversas de grupos orquestrados, e um deslumbramento midiático de setores médios da sociedade, não há como deixar de identificar que as perdas irreparáveis, no acúmulo dos séculos, foram contabilizadas: não rendiam dois tostões. Basta imaginar a menina que olha pela janela e vê o rio que margeia a sua casa, coberto de dejetos, praticamente sem vida, com automóveis, entulhos, objetos roubados, cadáveres, muitos cadáveres, e um cheiro pavoroso que as narinas delicadas são incapazes de entender como uma produção humana.
O homem cordial, magistralmente intuído por Sérgio Buarque de Holanda, foi grotescamente pervertido. E repetido até explodir os tímpanos, enquanto os “movimentos reformadores” sistematicamente ignoraram a “a grande massa do povo”, com uma ausência quase total de uma “concepção da vida bem definida”, que tivesse amadurecido e, somente aí, pudesse ser implementada. 4 Muito ao contrário, impuseram as suas concepções e doutrinas, numa predisposição arbitrária e não-consensual.
Mas inquieta, sobretudo, as motivações que insistiam na navegação rio acima da correnteza. Como não compreender que a idéia da cordialidade não abarca apenas “sentimentos positivos e de concórdia”? 5 Era do homem que falava ao coração que o “paulista” queria dizer. Em suas explosões de fúria, em seus gritos, seus desmandos, suas palavras desencontradas ao perjuro, embora doce e meigo com os seus pares e confrades. Esse era o senhor do nosso mundo. Esse é o senhor do nosso mundo.
E seria tão mais fácil entender o óbvio. O sublime pressupõe trabalho.
No entanto, apesar de dizerem muito a respeito de nossa cultura, os mitos sabem encobrir camadas arqueológicas de outros saberes e práticas. Assim como, sabiamente, em nosso comodismo maroto, nos tripudiam e nos enganam.
Nesse sentido, algumas lendas mais encobriam do que revelavam da própria idéia de Brasil. Historicamente tivemos no país uma série de revoltas, movimentos aparentemente reformadores ou não, manifestações, quebra-quebras, atos políticos os quais, em seus mais diversos momentos, procuraram alguma transformação social. Mas não foi só isso. Igualmente utilizaram a força de suas gentes para empregá-las numa espécie de resistência social. Resistência à transformação da própria sociedade.
Por outro lado, a nossa formação social foi construída sob o reino colonial, por meio do império da casa grande e da senzala, muradas pelas pedras rochosas da inquisição. A nossa bandeira, diziam, tinha o verde das matas e o amarelo do ouro que nos roubaram. No entanto, confirmava uma dimensão histórica absurdamente distinta.
Ora, distante daquele ideário romantizado, o pendão da tua terra, que a brisa beija e balança, expressa as cores de duas dinastias: a dos Braganças, com o verde daquela família real portuguesa, e, através do amarelo-ouro, simboliza os Habsburgos, da casa da Áustria. Nenhuma referência aos primeiros donos da terra e silêncio aos negros e seus mais de três séculos de escravidão e dor. Nada.
O fato é que reinterpretaram de tal forma aquelas cores para as suas dores serem insuportavelmente mais felizes.
Aliás, reinterpretar é um verbo curioso, que as instâncias de poder parecem conjugar com perfeição. No entanto, é importante deixar claro, essa tal relação com uma percepção crítica de um símbolo considerado “sagrado”, jamais existiu em nosso verde-amarelismo, pois operaram sempre com aquele sistema de representação cultural que lhes convinha. Como narcisos às avessas, eles hoje brincam pelas ruas de reinventar a concepção da história. Assim, a cada hino, nos obrigam a atualizar o rito de louvor à nossa dívida imorredoura com o colonizador europeu.
O medo, a força, o gesto terrível, esses sim, fizeram parte da nossa constituição primeira. E se mantiveram como uma expressão intrínseca, fundamental, extasiada a cada novo rubor patriótico. (É importante ter claro e não confundir pátria com nação; patriotada, como já ensinavam os modernistas, com projeto de país. São coisas distintas, que só duramente nos é dado a perceber.)
Enfim, temos um poder de Estado, não de governo, que atua com rara competência, por meio da sua força policial. É importante observar, leitor amigo, a sutilíssima e machadiana diferença.
Com efeito, esse mesmo Estado encontra enormes dificuldades em reconhecer o seu povo. A não ser quando ele se aquieta enquanto massa de manobra, ou torcidas organizadas em frente a aparelhos de tevê, ou, ainda, na condição de dóceis rebanhos, capazes de doar a própria vida por aquele que melhor dramatizar um sentido para a sua existência.
No entanto, grandes parcelas da população são tratadas de uma forma imbecilizante, como se a discussão política fosse um mal. Talvez seja mesmo, é fato reconhecer. Nada é mais inoportuno do que pensar. E não é mais oportuno conceber o povo como tolo e infantil? Todos os governos ditatoriais pensaram assim. Todos, sem exceção.
Como dizia aquele pernambucano, já falecido, ao povo, basta estar submisso e aceitar um “governo másculo e corajosamente autocrático”. 6 Ou, dito de outra forma, se este cardápio não convier, cabe ao mesmo povo ser sustentado através do sadismo do mando, conforme reza a tradição conservadora no Brasil.
E, em nome de uma pátria e de um povo, que só existe na miragem dos homens, permanecerem fiel aos cultos masoquistas e sentimentais.
Importante notar que essa expressão de uma idéia de povo não foi construída ao acaso. Foi necessária muita inteligência, uma dose refinada de maquiavelismo, e o emprego racional de uma força bruta para fazer voltar a roda da história e seguidamente conformar leis e constituições, em proveito das oligarquias e pretensões das (várias) metrópoles.
Os exemplos são inúmeros. Nesse sentido, no início do século passado, após a conquista da anistia, pelos marinheiros da revolta da chibata, que sofriam inúmeros castigos e penalidades, já objeto de reflexão neste site, os oficiais ordenaram o desarmamento dos navios e expulsaram dezenas de ex-amotinados, desrespeitando a concessão dada pelo próprio Estado. Há um desdobramento terrível com várias questões envolvidas, culminando com a notícia de mais de trezentos mortos. A figura de Tiradentes, o único homem do povo, num levante de poetas e donos de terra. Ao redor do seu pescoço, uma corda pendurada acertava a vingança do poder imperial. Estraçalhando os seus membros, depois de morto, salgariam a terra, com a anuência forçada do povo, obrigado a concordar de antemão com tudo aquilo. Ao vê-lo passar, deixavam-se estar, com os braços sobrepostos à bandeira de Portugal, no peitoril das suas janelas.
Os terrores de Canudos, com os seus remanescentes, após a devastação implacável; as experiências dos quilombos que transcendem em muito ao passado escravista; os relatos de Graciliano Ramos nas prisões do Estado Novo e tudo o que essa experiência inspirada no fascismo italiano significou; a Revolta dos Malês, em Salvador, na Bahia do século XIX; bem como aquela que ficou conhecida com a Revolta da Vacina, no Rio de Janeiro, magistralmente reinventada por Lima Barreto no seu Recordações do Escrivão Isaías Caminha. E as seqüelas esfumaçadas pelas visões do inferno que os porões da ditadura ofereciam a empresários de vários ramos de negócio, cujos estímulos aos seus fetiches, naquela liturgia servida pelos jornais da época, contavam-se como sagração de um novo tempo.
Atualmente, num final de outono, início de um inverno nesse país tropical, em que as estações são pouco delineadas, constata-se um sentimento fascista que se nutre da insatisfação popular. No entanto, é importante, como disse um jovem jornalista, saber afinar a sensibilidade política. A nossa e a dos outros, pois do contrário é fácil. A grande massa vive uma indignação histórica. As suas artérias estão obstruídas como as das ruas e avenidas. As contradições se avolumam.
Por conseguinte, há uma incrível dificuldade de percepção dessa situação emblemática. Por todas essas condições, gerou-se um estado de aparente letargia enquanto os termos difusos são processados em condições encobertas pela exaltação lírica do povo. Muito tempo de falta de consciência política produziu uma ferida aberta descomunal. A água estava represada, turva, e agora mais gente veio para as ruas do Brasil. E terminou o tempo de se vender versões e ilusões fáceis.
Talvez possamos com isso compreender esses significantes como capazes de produzirem novas verdades, algumas profundas e duras, sobre a nossa trágica história, acobertada docemente pelo manto de uma carnavalização mal-compreendida, ao expurgar a violência e o caráter irreverente do cômico. Talvez, com isso, amadurecemos a ponto de promover uma discussão sobre algumas questões de fundo. Em especial, aquelas que ocultam as razões da violência e da insensibilidade política, sustentando, desde o Brasil colônia, estruturas sociais e modelos de exclusão.


Este trabalho é dedicado à equipe de jornalismo e produção do Pós TV.
1 O lendário foi recolhido inicialmente pelo etnólogo alemão Theodor Koch-Grünberg. Publicado em 1924, aparece como Mythen und Legenden der Taulipang und Arekuná Indianer.
2 Andrade, Mário de. “1º Prefácio”. In: Macunaíma, o herói sem nenhum caráter. Estabelecimento do texto Telê Ancona Lopez e Tatiana Longo Figueiredo. Rio de Janeiro: Agir, 2008, p. 217.
3 Hall, Stuart. Identidade Cultural. São Paulo, Fundação Memorial da América Latina, Col. Memo, 1990, p. 54.
4 Holanda, Sérgio Buarque. Raízes do Brasil. 26ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 160-1.
5 Idem, p. 205.
6 Freyre, Gilberto. Casa Grande & Senzala. 41a. ed. São Paulo, Record, 2000, p. 123.

Fonte: http://outraspalavras.net/destaques/para-afinar-a-sensibilidade-politica/

16.6.13

Outras opiniões : ainda sobre a esquerda.


O futuro da esquerda, segundo um crítico marxista
T.J. CLARK

tradução JOSÉ VIEGAS

RESUMO A série em que a "Ilustríssima" adianta os principais lançamentos do ano traz trecho de "Por uma Esquerda sem Futuro", de T.J. Clark, a sair pela Editora 34. O crítico e professor de história da arte, convidado da próxima Flip, procura redefinir o papel da esquerda como opositora do capitalismo diante da crise atual.


Os intelectuais de esquerda, como a maioria dos intelectuais, não são bons políticos; especialmente se entendermos por política, como pretendo argumentar que deveríamos fazer, os detalhes comezinhos, o trabalho sem lustro e o brilho da performance.

Os intelectuais se atrapalham na hora de ler a partitura. Desafinam quando estão no palco. Mas talvez sirvam para uma coisa: mantendo a analogia musical, eles são, por vezes, os contrabaixistas da fila de trás, cujo resmoneio dá momentaneamente o tom da política e chega mesmo a indicar uma possível nova configuração para ela. Vez por outra, pode inclusive acontecer de a sobrevivência de uma tradição de pensamento e ação depender exatamente disso de que a política seja submetida a uma mudança de tom. É o que me parece estar acontecendo com a esquerda hoje.

Estes apontamentos dirigem-se essencialmente (lamentavelmente) à esquerda do antigo centro do capitalismo a esquerda da Europa. Mas pode ser que ecoem em outros lugares. Nada têm a dizer a respeito da invulnerabilidade do capitalismo a longo prazo e não emitem julgamento que louco se atreveria a fazê-lo nas circunstâncias atuais? sobre a eficiência com que esse sistema gere seus domínios globais ou sobre a eficácia de seu humanismo militar.

O único veredicto implícito no que segue é um veredicto negativo quanto à possibilidade de que a esquerda atual a esquerda realmente existente, como costumávamos dizer ofereça uma perspectiva em que os defeitos do capitalismo, e os dela própria, façam algum sentido. Por "perspectiva", entendo uma retórica, uma tonalidade, uma imagística, uma argumentação e uma temporalidade.

Por "esquerda", entendo uma oposição radical ao capitalismo. Mas essa oposição, como sustento a seguir, nada tem a ganhar com previsões arrogantes e irrealistas sobre o fim próximo do capitalismo. A radicalidade é estabelecida no presente. Quanto mais profundos os esforços preparatórios de um movimento político, tanto maior o seu foco no aqui e agora.

É evidente que existe uma alternativa à ordem atual das coisas. Mas isso não leva a nada nada que mereça ser considerado político. Tem-se a impressão de que a esquerda está imobilizada, no nível da teoria e por conseguinte no da prática, pela ideia de que deve ficar o tempo todo revolvendo as entranhas do presente em busca de sinais de catástrofe e salvação. É melhor olhar para o "pescrai" e para o "maruflicchio"* com ironia infinita uma ironia camponesa, com seu justificado desdém pelo futuro do que apostar em uma política fundada, ainda outra vez, em uma multidão de terracota que espera a hora de sair marchando do túmulo do imperador.

*
É uma visão pessimista? Admito que sim. Mas, à luz dos últimos dez anos, que outra tonalidade parece possível? Como se espera que entendamos a materialização de uma derrocada para valer a ordem financeira mundial ("Essa joça pode ir pro brejo", como disse George W. Bush a seus auxiliares em setembro de 2008) e o quase total fracasso da esquerda em fazer com que suas respostas a isso tivessem uma repercussão mais ampla e não fossem ouvidas só entre fileiras dos fiéis? Ou, visto de outra maneira: se a década passada não é prova da inexistência de qualquer circunstância capaz de reconstituir a esquerda nas formas que ela assumiu nos séculos 19 e 20, o que se entende então por prova?

É um momento amargo. A política, em boa parte do velho e anteriormente inamovível centro, parece tomar, a cada mês que passa, uma forma mais e mais "total" um caráter de tudo ou nada para os que a vivenciam. E na realidade (que não se confunde com o mundo fantasioso das conferências marxistas) isso é tão desanimador para a esquerda quanto para qualquer outra corrente política.

A esquerda está igualmente despreparada para enfrentar a situação. O silêncio dos esquerdistas gregos, por exemplo sua incapacidade de apresentar um programa alternativo de política econômica que contemplasse de forma efetiva e convincente a opção pela moratória, incluindo uma projeção, ano a ano, das consequências de uma saída "ao estilo argentino" é sintomático. E digo isso sem o menor sarcasmo.

Dado o entrelaçamento da presente ordem mundial, se e quando a economia de um país entra em crise, o que alguém, seja quem for, tem para dizer com um mínimo de detalhes que não façam a pessoa cair no ridículo sobre o "socialismo em um só país", ou mesmo sobre o "capitalismo não dirigido pelo capital financeiro num pseudo-Estado-nação em situação de parcial isolamento"? (Por acaso a esquerda pretende se associar aos eurocéticos em sua longa marcha? Ou apostar suas fichas no proletariado de Guangdong?)

A questão do capitalismo justamente porque o próprio sistema está se colocando de novo a questão (se torturando com ela), fazendo assim que ela, com toda a sua enormidade, ofusque o teatro de sombra dos partidos tem de ser deixada temporariamente de lado. Não há como dotá-la de caráter político. A esquerda faria melhor voltando sua atenção para aquilo a que esse caráter ainda pode ser conferido.

*
É difícil pensar historicamente sobre a crise atual, mesmo em termos gerais comparações com 1929 não parecem ajudar, de modo que não há como saber em que vai dar essa mistura de caos e "rappel à l'ordre". O gás lacrimogêneo é colírio nos olhos dos investidores; a greve geral dos gregos está em todas as bocas; o Goldman Sachs faz e acontece no mundo.

Talvez possamos estabelecer um paralelo entre o que vem se passando de 1989 para cá e o momento posterior a Waterloo na Europa o momento da restauração e da Santa Aliança, da aparente imobilidade histórica mundial (apesar da vigorosa reconstelação das forças produtivas) no período que vai de 1815 a 1848.

Considerando o projeto do Iluminismo meu tema continua a ser o da resposta do pensamento político a transformações em larga escala das circunstâncias, esses anos foram um interregno desprovido de paradigmas. O longo arco da crítica racional e filosófica o arco que passa por Hobbes, Descartes, Diderot, Jefferson e Kant havia chegado ao fim. Retrospectivamente, pode-se dizer que, sob o verniz da restauração, formavam-se já os elementos de uma nova visão da história: mutações peculiares no utilitarismo e na economia política; as especulações de Saint-Simon; os contrafáticos de Fourier; a energia intelectual dos jovens hegelianos.

Mas, na época (à sombra de Metternich, de Ingres e do segundo Coleridge), era extremamente difícil tomar esses elementos pelo que eles de fato eram, quanto mais vislumbrar a possibilidade de que viessem a fundir-se em uma forma de oposição uma compreensão nova daquilo a que era preciso se opor e uma intuição sobre o novo ponto de vista a partir do qual a oposição poderia avançar.

É nisso que a Europa de Castlereagh1 se assemelha à Europa de hoje: na sensação de que caíram por terra uma linguagem e um conjunto de postulados até então tidos como conducentes à emancipação, e também na dúvida, bastante realista, de que os elementos de uma nova linguagem possam de fato ser encontrados no espetáculo geral de uma política engessada, de uma economia impiedosa e de um entusiasmo generalizado (como sempre) pela mais recente e estúpida novidade tecnológica.

*
Em outras palavras, a questão para a esquerda no momento é: quão fundo tem de ir a sua reconstrução do projeto do Iluminismo? "Quão para baixo?" Entre nós, há quem pense: "Sete níveis do mundo"2. Tenho a sensação de que o livro que deveríamos estar lendo em vez de "L'Insurrection qui Vient"3 é "The Experience of Defeat", de Christopher Hill.

Ou seja, as heterogêneas, inesperadas e sem dúvida perigosas vozes de que me socorro nestes apontamentos Nietzsche, apesar de tudo; as páginas de Bradley sobre a tragédia; o aterrorizante "Homo Necans", de Burkert; o que Hazlitt e Bruegel têm de mais implacável; Moses Wall nas trevas de 1659; Benjamin em 1940 só em momentos de verdadeiro fracasso histórico vêm à mente como recursos de que a esquerda pode se valer. Só lhes damos ouvidos quando os fatos nos obrigam a perguntar o que, em nossas anteriores encenações da transfiguração, levou à derrocada atual.

O uso que faço da palavra "esquerda" remete, claro, a uma tradição política de que quase já não há traço algum nos governos e oposições que temos hoje. (Parece uma excentricidade perder tempo agora com os tipos de diferença assinalados no passado pelo prefixo "ultra" que essa tradição comportava. Depois que o sol se põe, todos os gatos são pardos.) "Esquerda", portanto, é um termo que denota uma ausência; e essa quase não existência precisa estar explícita em uma nova forma de pensar a política.

Disso não se segue, porém, que a esquerda deva continuar a exaltar a própria marginalidade, como seus integrantes frequentemente se sentem inclinados a fazer exultando no glamour de sua grande recusa e relegando à escuridão que reina lá fora o resto de um mundo impenitente. Desse lado fica o intelectualismo4.

A única abordagem política de esquerda que faz jus ao nome é, como sempre, a que olha nos olhos de sua insignificância, mas cujo interesse está todo voltado para aquilo que pode transformar o vestígio, lenta ou repentinamente, no começo de um "movimento". Muitas e amargas serão as coisas sacrificadas as ideias grandiosas, a estilística revolucionária no processo.

Notas

* Uma das epígrafes do livro, aqui suprimida, foi extraída de "Cristo Parou em Eboli", de Carlo Levi. O trecho explica que, embora haja no dialeto termos distintos para falar de dias futuros (amanhã é "crai", depois de amanhã é "pescrai", até o sétimo, "maruflicchio"), eles costumam ser usados juntos, provando a "inutilidade de se querer enxergar alguma coisa no eterno nevoeiro do 'crai'".

1. Chanceler do Reino Unido entre 1812 e 1822, Robert Stewart, o visconde de Castlereagh [1769-1822] teve atuação decisiva na administração da coalizão internacional que derrotou Napoleão e foi o principal diplomata britânico no Congresso de Viena. [N.E.]
2. Alusão ao poema "Lovely Shall Be Choosers", de Robert Frost [1874-1963], em que, num diálogo travado em uma espécie de além-mundo, decide-se submeter uma mulher a uma série de (sete) duras frustrações na vida. Uma voz ("A Voz") diz: "Joguem-na para baixo!" [Hurl her down!], ao que outras vozes ("As Vozes") indagam: "Quão para baixo?" [How far down?], e a Voz responde: "Sete níveis do mundo" [Seven levels of the world].[N.E.]

3. Ensaio-manifesto que faz uma análise radical da sociedade ocidental e propõe uma insurreição mundial em moldes anarquistas, defendendo a sabotagem a todas as instâncias de representação e a formação de comunas. Foi publicado em 2007 pelo Comité Invisible, um grupo de ativistas franceses que permanecem no anonimato. [N.E.]

4. No original: That way literariness lies, alusão à frase: This way madness lies ["Desse lado fica a loucura"] com que o rei Lear, na peça homônima de Shakespeare, indica a direção do castelo onde se encontram as duas filhas cuja ingratidão o põe ensandecido. [N.E.]

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2013/06/1294782-o-futuro-da-esquerda-segundo-um-critico-marxista.shtml

2.6.13

INtrovertidos e EXtrovertidos, eis a questão


O Poder dos Quietos*

SUSAN CAIN


tradução ANA CAROLINA BENTO RIBEIRO 


Nossas vidas são moldadas tão profundamente pela personalidade quanto pelo gênero ou código genético. E o aspecto mais importante da personalidade "o norte e o sul do temperamento", como diz um cientista é onde cada um se localiza no espectro introversão-extroversão. 
Nosso lugar nesse contínuo influencia como escolhemos amigos e colegas, como levamos uma conversa, resolvemos diferenças e demonstramos amor. Afeta a carreira que escolhemos e se seremos ou não bem-sucedidos nela. Governa o quanto temos tendência a nos exercitar, a cometer adultério, a funcionar bem sem dormir, a aprender com nossos erros, a fazer grandes apostas no mercado de ações, a adiar gratificações, a ser bons líderes e a perguntar: "E se?"
Isso se reflete nos caminhos do nosso cérebro, nos neurotransmissores e nos cantos mais remotos do nosso sistema nervoso. Atualmente, introversão e extroversão são dois dos aspectos mais pesquisados na psicologia da personalidade, despertando a curiosidade de centenas de cientistas. 

Apesar de descobertas animadoras, esses pesquisadores, auxiliados pela tecnologia mais avançada, fazem parte de uma longa e histórica tradição. Poetas e filósofos têm pensado sobre introvertidos e extrovertidos desde o início dos tempos. Os dois tipos de personalidade aparecem na Bíblia e nos escritos de doutores gregos e romanos, e alguns psicólogos evolucionistas dizem que a história desses comportamentos vai muito além: o reino animal também apresenta "introvertidos" e "extrovertidos", como veremos, de moscas da fruta a peixes e macacos. 

Como outros pares complementares masculinidade e feminilidade, Ocidente e Oriente, liberais e conservadores, a humanidade seria irreconhecível, e imensamente diminuída, sem os dois estilos de personalidade. 

Veja a parceria de Rosa Parks e Martin Luther King Jr.: um formidável orador recusando-se a ceder seu lugar em um ônibus segregado não causaria o mesmo efeito de uma mulher modesta que claramente preferiria manter-se em silêncio, não fosse o que a situação exigia. E Parks não teria o necessário para eletrizar uma multidão se tivesse tentado se levantar e anunciar que tinha um sonho. Mas com a ajuda de Martin Luther King, ela não precisou fazê-lo. 

ESTILOS 

No entanto, hoje abrimos espaço para um número notavelmente limitado de estilos de personalidade. Dizem que para sermos bem-sucedidos temos que ser ousados, que para sermos felizes temos que ser sociáveis. 

Vemo-nos como uma nação de extrovertidos o que significa que perdemos de vista quem realmente somos. Dependendo de que estudo você consultar, de um terço a metade dos norte-americanos é introvertido em outras palavras, uma em cada duas ou três pessoas que você conhece. (Considerando que os EUA estão entre as nações mais extrovertidas, o número deve ser pelo menos tão alto quanto em outras partes do mundo.) Se você não for um introvertido, certamente está criando, gerenciando, namorando ou casado com um. 

Se essas estatísticas o surpreendem, provavelmente é porque muitas pessoas fingem ser extrovertidas. Introvertidos disfarçados passam batido em parquinhos, vestiários de escolas e corredores de empresas. Alguns enganam até a si mesmos, até que algum fato da vida uma dispensa, a saída dos filhos de casa, uma herança que permite que passem o tempo como quiserem os leva a avaliar sua própria natureza. 

Você só precisa abordar o tema deste livro com seus amigos e conhecidos para descobrir que mesmo as pessoas mais improváveis consideram-se introvertidas. 

Faz sentido que tantos introvertidos escondam-se até de si mesmos. Vivemos em um sistema de valores que chamo de "ideal da extroversão" a crença onipresente de que o ser ideal é gregário, alfa, sente-se confortável sob a luz dos holofotes. O típico extrovertido prefere a ação à contemplação, a tomada de riscos à cautela, a certeza à dúvida. Ele prefere as decisões rápidas, mesmo correndo o risco de estar errado. Ele trabalha bem em equipes e socializa em grupos. 

Gostamos de acreditar que prezamos a individualidade, mas muitas vezes admiramos um determinado tipo de indivíduo o que fica confortável sendo o centro das atenções. É claro que permitimos que solitários com talento para a tecnologia que criam empresas em garagens tenham a personalidade que quiserem, mas estes são exceções, não a regra, e nossa tolerância estende-se principalmente àqueles que ficaram incrivelmente ricos ou que prometem fazê-lo. 

DECEPÇÃO 

Introversão com suas companheiras sensibilidade, seriedade e timidez é, hoje, um traço de personalidade de segunda classe, classificada em algum lugar entre uma decepção e uma patologia. Introvertidos vivendo sob o ideal da extroversão são como mulheres vivendo em um mundo de homens, desprezadas por um traço que define o que são. A extroversão é um estilo de personalidade extremamente atraente, mas a transformamos em um padrão opressivo que a maioria de nós acha que deve seguir. 

O ideal da extroversão tem sido bem documentado em vários estudos, apesar dessa pesquisa nunca ter sido agrupada sob um único nome. Pessoas loquazes, por exemplo, são avaliadas como mais espertas, mais bonitas, mais interessantes e mais desejáveis como amigas. A velocidade do discurso conta tanto quanto o volume: colocamos aqueles que falam rápido como mais competentes e simpáticas que aqueles que falam devagar. 

A mesma dinâmica aplica-se a grupos, em que pesquisas mostram que os eloquentes são considerados mais inteligentes que os reticentes apesar de não haver nenhuma correlação entre o dom do falatório e boas ideias. Até a palavra "introvertido" ficou estigmatizada um estudo informal feito pela psicóloga Laurie Helgoe mostrou que os introvertidos descrevem a própria aparência física com uma linguagem vívida ("olhos verde-azulados", "exótico", "maçãs do rosto salientes"), mas quando se pede para descreverem introvertidos em geral eles delineiam uma imagem insossa e desagradável ("desajeitado", "cores neutras", "problemas de pele"). 

Mas cometemos um erro grave ao abraçar o ideal da extroversão tão inconsequentemente. Algumas das nossas maiores ideias, a arte, as invenções desde a teoria da evolução até os girassóis de Van Gogh e os computadores pessoais vieram de pessoas quietas e cerebrais que sabiam como se comunicar com seu mundo interior e os tesouros que lá seriam encontrados. 

Sem introvertidos, o mundo não teria: a teoria da gravidade; a teoria da relatividade; "O Segundo Advento", de W.B. Yeats; Os "Noturnos" de Chopin; "Em Busca do Tempo Perdido", de Proust; Peter Pan; "1984" e "A Revolução dos Bichos, de George Orwell; "O Gato do Chapéu", do Dr. Seuss; Charlie Brown; "A Lista de Schindler", "E.T." e "Contatos Imediatos de Terceiro Grau", de Steven Spielberg; o Google; Harry Potter. 

ESTÍMULOS 

Como escreveu o jornalista científico Winifred Gallagher: "A glória da disposição que faz com que se pare para considerar estímulos em vez de render-se a eles é sua longa associação com conquistas intelectuais e artísticas. Nem o E=mc² de Einstein nem 'Paraíso Perdido', de John Milton, foram produzidos por festeiros." 

Mesmo em ocupações menos óbvias para os introvertidos, como finanças, política e ativismo, alguns dos grandes saltos foram dados por eles. Figuras como Eleanor Roosevelt, Al Gore, Warren Buffett, Gandhi e Rosa Parks conquistaram o que conquistaram não "apesar de", mas por causa de sua introversão. 

Mesmo assim, muitas das mais importantes instituições da vida contemporânea são criadas para aqueles que gostam de projetos em grupo e altos níveis de estímulo. Nas turmas infantis, cada vez mais as mesas das salas de aula são arrumadas em forma de concha, a melhor para encorajar o aprendizado em grupo, e pesquisas sugerem que a grande maioria dos professores acha que o aluno ideal é um extrovertido.
As crianças assistem a programas de TV em que os protagonistas não são crianças como qualquer uma, mas estrelas do rock, por exemplo, como Hannah Montana. 

Quando adultos, muitos de nós trabalhamos para empresas que insistem em que trabalhemos em grupo, em escritórios sem paredes, para supervisores que valorizam "um bom relacionamento interpessoal" acima de tudo. Para avançarmos em nossas carreiras, espera-se que nos promovamos descaradamente. 

Os cientistas cujas pesquisas conseguem financiamento muitas vezes possuem personalidades confiantes, talvez até demais. Os artistas cujos trabalhos adornam as paredes de museus de arte contemporânea posam de forma a impressionar nos vernissages. Os autores que têm seus livros publicados tidos no passado como uma raça reclusa hoje são avaliados pelos editores para assegurar que possam participar de programas de entrevistas. (Você não estaria lendo este livro se eu não tivesse convencido meu editor de que sou suficientemente pseudoextrovertida para promovê-lo.) 

DOR 

Se você é um introvertido, também sabe que o preconceito contra os quietos pode provocar uma profunda dor psicológica. Quando criança, pode ter ouvido seus pais se desculparem pela sua timidez. ("Por que você não pode ser mais parecido com os meninos Kennedy?", repetiam constantemente os pais de um homem que entrevistei.) Ou na escola você pode ter sido estimulado a "sair da sua concha" expressão nociva que não valoriza o fato de que alguns animais naturalmente carregam seu abrigo aonde quer que vão, assim como alguns humanos. 

"Ainda ouço todos os comentários da minha infância em minha cabeça, dizendo que eu era preguiçoso, burro, lento, chato", escreveu um membro de uma lista de e-mail chamada Refúgio dos Introvertidos. "Quando eu tive idade suficiente para entender que eu simplesmente era introvertido, a suposição de que algo estava inerentemente errado comigo já era parte do meu ser. Queria encontrar esse vestígio de dúvida e tirá-lo de mim." 

Agora que você é um adulto, talvez ainda sinta uma ponta de culpa quando recusa um convite para jantar para ler um bom livro. Ou talvez você goste de comer sozinho em restaurantes, podendo passar sem os olhares de pena dos outros clientes. Ou lhe dizem que você "fica muito na sua cabeça", uma frase muitas vezes utilizada contra os quietos e cerebrais. 

É claro que há outro nome para pessoas assim: pensadores. 

*O Poder dos Quietos
Autor: Cain, Susan
Editora: Agir 



25.5.13

com a palavra, Costa-Gavras


Constantin Costa-Gavras ,80 anos, cineasta.


 Constantin Costa-Gavras* descarta a bandeira de "cineasta político". "Faço filmes sobre o que vejo", diz. "Mas todos os filmes são políticos. Não há nada mais político do que um filme de super-herói."

Com 80 anos de idade e 55 de cinema, ele se tornou conhecido ao filmar o caso real do assassinato de um político grego em "Z" (1969), longa que lhe rendeu o Oscar de filme estrangeiro.
Sua vasta filmografia inclui ainda críticas a regimes militares -- "Estado de Sítio" (1972) e "Desaparecido - Um Grande Mistério" (1982)--, mas seu inimigo parece ter trocado as armas pelos labirintos do sistema financeiro.

Em 2012, Gavras adaptou o romance "Le Capital", do francês Stéphane Osmont. O resultado, "O Capital", retrata a sobreposição dos bancos à democracia pela perspectiva de um ambicioso executivo e tem previsão de estrear no Brasil no próximo dia 31.

 Ao tecer um retrato da crise financeira que assola o continente desde 2008, o cineasta greco-francês é enfático: "A Europa se tornou um grande supermercado".
Costa-Gavras lamenta os rumos atuais da União Europeia ao lembrar sua chegada à França em 1954, filho de um imigrante que lutara na ala esquerdista da Resistência Grega aos nazistas na Segunda Guerra Mundial (1939-45).

As atividades políticas de seu pai tornaram insuportável a vida na Grécia, então sob um regime militar, e a tentativa de emigrar para os Estados Unidos seria impossível com as duras leis do macarthismo --período de caça implacável a suspeitos de ligações com o comunismo.

Leia a seguir trechos da entrevista que ele concedeu por telefone à Folha da casa em que vive há 50 anos em Paris.

*

Folha - De onde nasceu a ideia para filmar "O Capital"?
Costa-Gavras - O filme começou a ser produzido antes da crise de 2008, pois queria retratar os riscos de endividamento que a Europa enfrenta já há vários anos. Essa preocupação levou-me a ler muitos romances com viés econômico, entre eles o de Osmont, que era assessor financeiro de algumas das maiores empresas da Europa.

O que há de marxista no filme?
Nada muito além do título. Nos dois casos, fala-se do dinheiro e do perigo da sua acumulação, mas o filme não é uma condenação ao capitalismo, apenas ao modelo atual. O dinheiro é um instrumento extraordinário, permite a comunicação, as trocas. Mas também é um mecanismo de corrupção.

O sistema financeiro criou uma nova estrutura de poder?
Em parte, sim e a obscenidade dessa nova forma de poder me causa indignação. A situação da Grécia, por exemplo, é realmente trágica.

Os países ricos da Europa estimularam o endividamento dos mais pobres, com o único objetivo de vender seus produtos. O capitalismo europeu não é tão agressivo quanto o americano, mas a Europa se tornou um grande supermercado.

A União Europeia está condenada se seguir assim. Os criadores do bloco queriam uma Europa política, social, cultural e econômica.

As maiores indústrias do continente hoje, porém, são as de produtos inacessíveis à maioria das pessoas. Quando eu era jovem, dizia-se que era preciso uma classe média forte para garantir a estabilidade, mas a classe média está cada vez menor e mais endividada.

 Mas é possível enxergar uma solução para essa crise?
As soluções devem partir dos economistas e das pessoas em quem votamos. Um cineasta apenas faz as perguntas certas. Nem todo político é corrupto, ainda que eles costumem ter uma debilidade que resulta de pensar apenas em ser eleitos.

Suas obras costumam ser identificadas como filmes políticos. Isso o incomoda?
É um conceito estranho, pois todos os filmes são políticos. Não há nada mais político do que um filme de super-herói, com um carro potente e salvando mocinhas indefesas. O impacto que o cinema de puro entretenimento exerce sobre as gerações é incalculável. Faço filmes sobre o que me inquieta. E só.

Suas inquietações se enquadram em alguma ideologia?
Minha mãe sempre me dizia: "Nunca se meta com política!". Jamais pertenci a um partido ou defendi uma ideologia, mas é preciso se posicionar, deixar claro se você está do lado do mais forte ou do mais fraco. A indiferença é confortável, mas paga-se um preço muito alto por ela.

É possível fazer filmes sem financiamento do governo?
Não há cinema sem apoio público. Nem nos Estados Unidos. Vejo, porém, uma geração de cineastas se valendo das facilidades tecnológicas para criar vozes próprias. Alguns são tão competentes que o Estado vai buscá-los.

Seus filmes já falaram de ditaduras, do Holocausto e do capitalismo. O que resta filmar?
Políticos têm carreiras, cineastas têm paixões. É a dúvida que move um diretor, a vontade de dividir os dilemas que ele carrega sozinho. E sempre haverá uma história a ser contada. Tenho 80 anos e não consigo imaginar minha vida sem fazer filmes.


 Costa-Gavras* -Lutrá Iréas, Arcádia, 12 de fevereiro de 1933) é um cineasta grego, naturalizado francês, que se notabilizou por seus filmes de denúncia política e, mais recentemente, de ficção social.



VIDA
Nasceu na península do Peloponeso, sul da Grécia, em 12 de fevereiro de 1933. Mudou-se para Paris em 1954, para estudar literatura na Sorbonne, curso que mais tarde trocou pelo de cinema. É casado e pai dos cineastas Julie e Romain Gavras. É naturalizado francês

CARREIRA
Dirigiu seu primeiro filme, o curta-metragem "Les Rates", em 1958. Presidiu a Cinemateca Francesa na década de 1980 e é presidente de honra da instituição desde 2007. Seus filmes tocam em temas de cunho histórico e social

PRÊMIOS
Ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro pelo longa "Z" (1969) e o de melhor roteiro adaptado por "Desaparecido - Um Grande Mistério" (1982), além da Palma de Ouro em Cannes. No mesmo festival, levou o prêmio de melhor diretor por "Sessão Especial de Justiça" (1975). Ganhou o Urso de Ouro do Festival de Berlim por "Muito Mais que um Crime" (1989)
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Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2013/05/1281860-aos-80-costa-gavras-fala-sobre-o-capital-filme-em-que-discute-poder-e-a-crise-na-europa.shtml